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Pure evil

por the fazz, em 18.02.09

Existe muita maldade no mundo. Muita mesmo. Mas nada se compara à crueldade das pessoas que criam zípers nas costas de uma blusa. Desses que nunca se pode fechar sem a ajuda de uma outra pessoa. A gente aprende a apreciar as vantagens de ir ao cinema sozinha (como sempre achar um bom lugar pra uma pessoa, mesmo quando o filme já está pra começar). E aprende a sempre ter um amigo gay que nos divirta em programas em que geralmente só vão casais. Mas não se pode escapar da imensurável agonia de não conseguir fechar um zíper. É tão fácil disfarçar nas outras situações... mas na solidão do seu quarto, enfrentando uma blusa malignamente concebida, fica ainda mais claro que falta uma metade de você.

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publicado às 21:31

Intimidade

por the fazz, em 23.11.08

Ao longo das semanas, se aproximaram com ansiosa e disfarçada cautela. Olharam-se nos olhos. Desejaram-se. Beijaram-se. Consumiram-se. Trocaram cortejos cafonas. Dormiram e acordaram juntos por muitos dias seguidos até que, finalmente, inevitavelmente, puderam andar de mãos dadas na rua.

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publicado às 12:50

Hoje vai chover

por the fazz, em 08.08.08

No momento em que me sentei ao seu lado percebi que já havíamos compartilhado um banco de ônibus antes. Havia outros assentos vagos, mas escolhi justo aquele porque era um banco alto. E se há algo da infância que a gente preserva por toda a vida é a satisfação de sentar nos bancos altos. Assim como pisar em folhas secas retorcidas e ouvir aquele "créc" delicioso, estourar plástico bolha ou sempre querer apertar o botão do elevador. Ainda assim, logo acomodada, percebi que foi uma escolha errada. Aquele era o rapaz que descia 3 pontos antes de mim. Isso é sempre um inconveniente quando eu não sento do lado da janela, porque eu sou sempre uma das últimas a descer do ônibus e quando sento do lado do corredor, sempre tenho que me levantar pra dar passagem pra outra pessoa. Sim, sempre. Eu sei que muitos não levantam, apenas viram o corpo para o lado, removendo as pernas do caminho. Mas ainda assim, é sempre muito desastroso passar com uma pessoa ali. E acredite, a última coisa que eu quero é um estranho esfregando a bunda em mim. Eu agradeço que pense que é muita gentileza da minha parte levantar-me e dar passagem. Não é. Apenas não esfregue sua bunda em mim.

O problema é que sou uma mulher desastrada que mal pode com a estrutura do próprio corpo (há pouquíssimo tempo comecei a me referir a mim mesma como "uma mulher". Isso tem certa graça. Acho que só adquiri esse hábito porque não queria que pensassem que eu sou uma mulher de 27 anos, inteiramente dissociada que ainda se denomina "menina". Mas juro, ainda sou uma menina). Além de desajeitada, pra ajudar, sempre tenho muitas coisas nas mãos. Uma bolsa gigantesca pra que caibam muitas outras coisas, nem sempre as coisas que se espera encontrar na bolsa de uma mulher (ou uma menina). E um casaco incrivelmente grande, porque sinto mais frio do que deveria ser permitido. Então eu abro a bolsa que pode cobrir um terço do meu corpo e de repente sou uma mulher com fones no ouvido e um livro aberto sobre o colo. E de repente isso tudo faz de mim a mulher mais inacessível que você pode encontrar num ônibus a caminho da Vila Olímpia. É bom que, assim que chegar a hora, todo o meu esforço para dar passagem à esse moço seja devidamente reconhecido (eu o chamo de moço, porque pra mim ele não é menino nem homem. Ele tem cara de quem escolhe pra quais pessoas ele deve se denominar homem ou menino). Sim, porque apesar de haver outros assentos com lugar vago do lado da janela, eu não vou trocar de lugar. Não vou fazer o pobre moço passar por esse constrangimento. Não há regras desse tipo, mas no meu manual pessoal e instransferível, eu respeito a regra que eu criei. No caso de sentar-se ao lado de alguém no ônibus, permaneça ali até seu ponto final, ainda que outros bancos fiquem vazios. A não ser que você seja perspicaz o suficiente pra perceber que está sentada ao lado de um potencial psicopata. Aí pode. Caso contrário, não faça a pessoa ao lado acreditar que ela fede. Por favor, tenha decência.

Eu percebo que no momento em que eu tiro o livro da bolsa, ele repara de rabo de olho em qual livro estou lendo. Geralmente, e isso ainda é um resgate não muito positivo da minha infância perturbada, eu dificulto o máximo que posso pra que a pessoa ao lado nunca consiga ver a capa do livro que estou lendo. Eu tenho muito orgulho dos livros que leio. Nunca são dos tipos comuns que se encontram em ônibus como esse. Nunca fazem parte de uma coleção de jornal ou dos best-sellers de uma megastore. E ainda que muitos sejam clássicos, sempre carregam o charme de serem velhos, carcomidos e adquiridos em sebos em ruínas. Ainda assim não gosto de olhadelas no que estou lendo. Mas dessa vez foi diferente. Eu o deixei bem exposto no campo de visão do companheiro de banco e sei que ele não teve dificuldades de ler o título em bold "É claro que você sabe do que eu estou falando". Este é o livro que eu queria ter escrito e que só não arranco e engulo cada uma de suas páginas porque ele foi publicado em Miryad. Eu detesto essa fonte. Tá, esse eu comprei numa megastore, mas ainda não deu tempo da Miranda July chegar aos sebos. Eu lembro de ter apertado forte o livro contra o peito e ter pensado "Deus! Nem acredito que esse livro é meu! Abençoe pra que seja um livro de lindas surpresas, que brilhe ao ser aberto e que não haja uma só linha parecida com o que eu escrevi na minha peça". Ninguém iria acreditar que eu não copiei essa mulher genial, ninguém iria acreditar que estamos apenas ligadas extra-sensorialmente, por uma porção de fatos que envolvem auto-piedade e a necessária capacidade de rir das próprias desgraças.

Aí estava. O moço já sabia que eu era uma mulher inacessível, vulnerável e apreciava literatura irônico-masoquista. E aí meu celular tocou. Meu celular é aquele cujo tema musical é o que me dá muito orgulho de ter escolhido, com um contrabaixo marcado e vocal feminino fazendo repetidos "bebeep". Agora ele sabe que eu sou uma mulher inacessível, vulnerável, apreciadora de literatura irônico-masoquista e uma esnobe que bota uma espécie de jazz metalinguístico como toque de celular. Era minha dentista no telefone, tentando marcar uma consulta para uma limpeza numa quinta pela manhã. Ele ouviu claramente quando eu disse "não posso na quinta porque tenho terapia". E em breves segundos ele já sabia que eu era uma mulher inacessível, vulnerável, apreciadora de literatura irônico-masoquista, uma esnobe que bota uma espécie de jazz metalinguístico como toque de celular e que possivelmente sofre de algum distúrbio social.

Não era minha culpa que, sabe-se lá como, eu acabava prendendo a ponta do casaco dele depois de uma curva do veículo. Achei um pouco grosseiro da parte dele puxar o casaco pra me remover de cima dele. Ainda mais agora que ele sabia demais sobre mim. Aliás, como eu me deixei expôr tanto pra um desconhecido no ônibus? Aquilo era ultrajante, assim que ele sinalizasse que iria descer, eu iria marcar apressadamente a página do livro, seguraria o iPod, o casaco e a bolsa, me levantaria para dar passagem e então o encararia, pra só então decidir o que fazer. Chegou o momento e eu decidi não fazer nada além de dar passagem. Desisti de fazer todas as coisas que você se sente desestimulada a fazer quando repara bem no moço ao lado e percebe que ele não é nada atraente. E depois, o que vocês esperavam que uma menina como eu dissesse para um homem completamente estranho?

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publicado às 05:38

É fatal

por the fazz, em 25.07.08

Mulheres, não se enganem. Não subestimem os dias em que a única calcinha limpa na gaveta é aquela bege, desproporcionalmente grande e com dois furos. Nem os fatídicos dias em que só você deveria saber que não teve tempo de se depilar. Os dias em que nascem as apocalípticas espinhas sinalizando a crueldade no meio da testa. Não se deixem mais abater pelo dia em que o cabelo está desastrosamente desobediente. Nem mesmo aqueles dias em que, em caráter emergencial, você é vítima do conjuntinho mais desajeitado do seu guarda-roupa. Porque são justamente nesses dias, e nunca em qualquer outro, que surge inadvertidamente o homem de mais absoluto encanto que você planejou encontrar durante toda a sua vida. E acredite. Ele nunca nota qualquer uma dessas fatalidades.

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publicado às 22:01

Estratagemas

por the fazz, em 25.07.08

Eu sempre fui muito criteriosa até com coisas bem triviais, sabe? Escolher toque de celular, por exemplo... Ah, não dá pra escolher qualquer tema. Isso diz muito da personalidade de uma pessoa. Veja só você... Eu gosto muito de uma banda de soul que usa só vocal, beatbox, contrabaixo e sax. Escolhi uma música deles como toque de celular. Mas presta atenção, é uma música curtinha, chamada sabe como? Bebeep. E o nome da banda, adivinha só. Tok Tok Tok. Porra, tinha que ser isso, meu toque de celular é uma metalinguagem, cara. Sensacional, falaí. Ahn? Claro, eu sabia que você ia ficar curioso. Liga pra ouvir, 8643.7877. Ah, e a propósito, aproveitando que o número já ficou registrado aí, meu nome é Fabíola.

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publicado às 03:13

Por acaso, uma amiga.

por the fazz, em 30.05.08

- Oi, Cammy! Por que você não apareceu no aniversário da Duda?

- Pois é, foi mal... Fiquei presa no estúdio até 22h, perdi minha carona... Mas como foi?

- Foi ótimo! Quando eu vi o Cacau por lá, achei que você também ia aparecer...

- O Cacau? Nossa, de onde você conhece o Cacau?

- Bem... a gente... estudou junto no colegial.

- É mesmo? Nossa, que mundo pequeno!

- Pois é.

- Menina, então conhecendo ele, você deve imaginar como eu tô nas nuvens...

- Nuvens?

- Ele é incrível. Ninguém nunca me fez sentir assim. As nossas conversas duram noites inteiras...

- Sei...

- E o sexo... Nossa, o sexo é surreal. O cara é insaciável. Ele me pega de um jeito...

- Cammy...

- No começo eu achava ele tão tímido, tão ensimesmado. Nunca imaginaria que dali sairia um ninfomaníaco!

- Cammy, deixa eu...

- E quando ele me joga naquele sofá... Aaaah, aquele sofá...

- Olha, Cammy...

- Você já deve ter visto aquele sofá. Aquilo tem história... Teve um dia que ele me arrastou assim...

- CAMMY! (Interrompe bruscamente) Se você puder me ouvir um minuto, eu só queria avisar que quando eu disse que estudei com o Cacau no colegial, eu não menti. Eu SÓ editei. Posso recolher meu coração agora?

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publicado às 22:52

Bancos reservados

por the fazz, em 19.05.08

A minha maior preocupação ao sentar em bancos reservados não é a obrigação de ceder o lugar à uma gestante ou um idoso. Meu maior medo é o de cometer um erro de julgamento... de ofender uma mulher apenas um pouco acima do peso... de ofender apenas um homem maduro com cabelos precocemente grisalhos. Faço um tremendo esforço pra não dar nas vistas minha avaliação minuciosa. Observo com cuidado. E levantar-me do assento às vezes é uma decisão com uma carga de deveres emocionais muito intensos. Imagino se às vezes não é uma maior gentileza permanecer sentada. Provando pra pessoa de pé à minha frente que ela é uma pessoa de evidente vigor, a quem ninguém jamais se atreveria a associar qualquer espécie de fragilidade. Faço isso imaginando a remota possibilidade de estar diante de algum neurótico. Imagino que uma dessas senhoras, depois de dizer "obrigada", questionam mentalmente "ela me considera gorda, velha ou aleijada?" São pessoas que dividem comigo duas ou três estações da linha vermelha, vinte ou trinta minutos da 9 de julho. Pessoas que provavelmente eu nunca mais verei na vida e que ainda assim, me fazem pirar sobre o uso responsável de um banco de cor cinza. Exato. É como me comporto com completos estranhos. Agora, procure compreender e imagine se eu seria mesmo capaz de algum dia ferir intencionalmente justo você.

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publicado às 02:48

Só 1 real.

por the fazz, em 09.04.08

E eis que entra pela porta traseira um homem nauseabundo e mal vestido, que debaixo de seus trapos, barba volumosa e mal cheirosa, surpreendentemente exibe o aspecto de um homem formoso, para aqueles que se atrevem a olhá-lo com diligência.

Distribui aos passageiros cartelas de adesivos metalizados e um papel amarelado com uma história xerocada. Desperta os adormecidos, incomoda os que se concentram em literatura, transita com dificuldade num ônibus lotado na 9 de Julho, deixando um pouco do seu fedor no colo dos assentados.

Apático e agitado, anexa aos impressos distribuídos um discurso monofônico. Estou com fome. É só um real. Mas qualquer coisa serve. Dez centavos pra comprar um pão. Só um pãozinho. Me ajudem. Tô com fome. Sabe o que é fome? Preciso comer. Qualquer coisa serve. Dez centavos. Vinte centavos. Segura aqui, eu já pego. Tenho fome, minha gente. Só quero comprar um pãozinho.

Apáticos e agitados, os passageiros continuam lendo os livros, as fofocas nos bancos elevados prosseguem, o olhar oblíquo através da janela permanece inalterado. No entanto, todos partilham o desconforto de segurar o papel imundo e a ansiedade de devolver o apelo do homem, que já retorna do seu percurso dentro do longo veículo.

Retorna escandalizado, com uma impaciência maturada. Xinga e arranca com agressividade os conjuntinhos adesivos das mãos dos passageiros. Vocês não têm coração. Um homem passando fome. Ninguém ajuda. Seus mesquinhos. Só pedi dez centavos. Tô com fome, seus malditos. Devolve essa merda.

E então, imobilizado pelo cenário burguês, cospe lá de trás uma só sentença que atrai quase todos os olhares para si. Já que ninguém se preocupa com nada além do próprio cu e eu ainda tenho fome, vou ser obrigado a roubar a bolsa ou a carteira de alguém, basta uma bolsa, basta uma carteira, deixo a critério de vocês escolher qual, vocês têm 1 minuto pra decidir. E como se ninguém pudesse crer em tamanha insolência, exibiu triunfante uma arma de fogo numa das mãos débeis.

A inquietação se transformou num silêncio funesto. Durou exatamente 15 segundos, até crescer num burburinho que se transformou num estrépito caótico. Começou com olhares orientados para as moças bem vestidas com suas bolsas estampadas e maquiagem à prova d´água, que por sua vez, esperavam o brio dos engravatados se manifestar, que por sua vez tinham os próprios pensamentos abafados pelas senhoras que não paravam de se lamentar, que tudo o que possuíam era o bilhete único, que eram tão miseráveis quanto o homem mal-cheiroso, que havia de ter um homem nobre para dar fim àquela agonia. O homem assiste satisfeito ao circo que ele próprio ergueu.

Do fundo do ônibus, uma jovem remove um dos fones do ouvido e chama o homem repugnante. Tira com tranqüilidade uma nota amassada de 1 real da bolsa, e para o espanto da platéia novamente silenciosa, pergunta com um sorriso franco, posso escolher os adesivos de borboleta?

Furioso e ofegante, o homem se precipita sobre a moça, extraindo de suas mãos as cartelas adesivas, esbravejando, não, não pode escolher, ou leva a que eu entreguei ou não leva nenhuma! E desce do ônibus, ganhando a rua com velocidade, apagando da memória os breves acontecimentos de minutos atrás.

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publicado às 04:37


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