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Dia extra

por the fazz, em 27.02.10

Tomaz flagrou 3 lágrimas perto do mouse. Apressou-se a enxugá-las da mesa e ela pensou que era exatamente esse o problema. As lágrimas umedecendo a mesa, emudecendo Angélica, e aquele cara fazendo merda.

 

Nem desconfiavam que ambos sentiam-se sigilosamente miseráveis pelos mesmos motivos. Além disso, o sábado seria ainda longo, entediante, trabalhoso e não-remunerado. Angélica olhou lá fora e achou muito irônico que as janelas da agência tivessem grades. Tomaz leu novamente seu roteiro sobre "o probiótico que te faz aproveitar melhor os pequenos prazeres da vida". Invocou a sensação de aproveitar os prazeres da vida, certamente de alguma vida que não era a sua. E então as grades na janela começaram a fazer todo o sentido. Era o mundo lá fora se protegendo de gente que vende pequenos prazeres da vida. Em potes de iogurte que custam 75 centavos.

 

Tentando criar um ambiente menos nocivo, ele decidiu ligar o iTunes, desplugar os fones e compartilhar com ela um pouco de Elliot Smith. Ela decidiu fazer um café para mantê-los animados pra exaustiva tempestade de ideias que viria a seguir. Só havia os dois na agência e como já não era mais hora do almoço, mas hora de almoçar, acharam que podiam pedir pizza, sorvete e cervejas.

 

Na sala de reunião, fizeram uma exibição privada de "Peixe Grande", "O Fabuloso Destino" e "Viagem a Darjeeling" para colher referências. Terminaram o serviço, removeram as latas de cerveja como se removem corpos da cena de um crime e foram pra casa, descansar para o domingo sem descanso. Alcançaram suas casas e acomodaram, sincronizados, suas cabeças em seus respectivos travesseiros. Suspiraram tão profundamente quanto permitiam seus pulmões, lamentando por mais um fim de semana desperdiçado. Imaginaram o sábado que adorariam ter vivido com alguém com quem pudessem ouvir música, ver um bom filme. Alguém pra escolher o sabor da outra metade da pizza ou pra testar a mistura de cerveja e sorvete. Num sono perturbado, Tomaz despertou estapeando a própria testa. Era um sinal punitivo do próprio organismo, reprovando-o por ter secado a mesa e não o rosto dela. Como eu havia dito, eles nem desconfiavam.

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publicado às 19:32


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