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Carta para Letícia

por the fazz, em 30.11.09

Letícia. Eu estive pensando em todas as suas colocações e não posso ser tão insensato ao ponto de achar que você não tenha razão em muitos dos seus argumentos. Você está absolutamente certa em me acusar de ter subestimado pequenas coisas que sempre foram fundamentais pra você. Eu sei que muitas delas não estavam ao alcance da minha compreensão, mas isso de nada invalida o fato de que o que você pensa deve ser respeitado. Às vezes é muito difícil compreender como funcionam suas expectativas e você tem absoluta razão em afirmar que são expectativas comuns a toda mulher e que eu sou um tolo de não ser sensível a isso. É inquestionável a sua colocação de que eu sou fraco, covarde e muitas vezes vivo pela metade as oportunidades que a vida me dá. Não há discussão quanto ao que você falou da minha imaturidade. Eu tive poucas mulheres na vida e pouco soube lidar com cada uma delas. Você tem razão quando me acusa de usar as palavras erradas em situações diversas. E usar palavras diversas pra tornar erradas as situações. Você está certa em me acusar de egocêntrico, arrogante e patologicamente pessimista. De ter sido desagradável com sua família. De ter dado pouco valor aos seus esforços em fazer a vida tratar a gente um pouco melhor. Por ter me exaltado pouco com suas conquistas, por ter apagado alguns sorrisos seus, por ter frustrado alguns dos seu sonhos. Mas quanto à todas as suas outras colocações, Letícia: vai tomar no seu cu.

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publicado às 02:27

R.I.P. Duque

por the fazz, em 17.11.09

Mesmo que agora more num bairro mais tranquilo, não perdi o costume de ser muito atenta e desconfiada. Mas por um estranho motivo, eu abri a porta assim, sem cautela ou uso de algum aparato sofisticado como o olho mágico ou elegantérrimo "quem é". Portanto, o quão maior não foi meu espanto quando vi diante de mim essa mulher, cuja expressão borrada em rímel e lágrimas representava um perigo iminente.

- Então é você. Deixa eu olhar bem pra essa sua cara.

Continuei imóvel. Esperei que ela mesma prosseguisse e mostrasse algum objetivo na visita inesperada.

- Eu não entendo. Ele nunca gostou de morenas.

Compreendi sua ferida, e me manifestei com certa prudência:

- Mais um motivo pra eu me sentir lisonjeada.

- Que desgosto... você não é nada do que eu esperava...

- Você tá muito nervosa... entra, eu vou preparar um chá pra você. Errr... Lillian?

- Deus do Céu! Você conheceu a Lillian? - me encarou com humilhada resignação - Soraya! Eu sou a Soraya!

Ela permenceu 3.4 segundos em silêncio e descarregou um choro tão doloroso quanto obscenamente sonoro.

- Que patética! Eu nunca imaginei que faria esse papel ridículo. Sempre achei que eu fosse um pouco mais autêntica... é tão humilhante isso, ser só mais uma. Uma coadjuvante, uma figurante...

Enquanto ela se lamentava, eu tentava acomodá-la em uma cadeira. Eu compreendia aquela mulher e jamais poderia expulsá-la dali. Era uma visita fúnebre, aquela. Ela veria nossa foto na geladeira, reconheceria os vinis que já vira antes, sentiria novamente o cheiro que não mais lhe pertencia e perceberia que não fazia mais parte daquela história. Eu precisava ajudá-la a se despedir, sem julgamentos. Eu que já estivera naquele papel, precisava dar a chance que não me foi dada anos atrás.

- Eu te desejei as piores coisas quando soube da sua existência, sabia?

- Eu sei. Toma um gole.

- Água de Melissa?

- Não, vodka.

- Você sabe cozinhar?

- Nadinha.

- Gosta de chorinho?

- Sei lá, tem no Guitar Hero?

- Como vocês se conheceram?

- Internet.

Seus olhos ganharam o dobro do tamanho original.

- Orkut?

- Second Life.

Ela aliviou um grito abafado numa das almofadas. Ela sentia uma combinação de ojeriza e constrangimento de estar conversando comigo. Sabia que tinha muitos motivos e ao mesmo tempo, absolutamente nenhum para me odiar. Eu achei saudável e necessário que ela despejasse algum ódio em mim. Mas não cogitava, sob nenhuma hipótese, compartilhar essa idéia com ela. Ela poderia dirigir os piores impropérios, e eu permaneceria em silêncio. Simplesmente porque sabia que não havia maior insulto que o fato de eu carregar uma aliança na mão esquerda, e ela não.

Os seus soluços se aquietaram e depois de um longo suspiro, ela fez qualquer gesto com a cabeça que eu sei que quase significava um "obrigada". Conduziu seu copo vazio à pia. Eu pedi pra que não se importasse. Deu uma boa olhada em 360º e eu percebi que era enfim, sua despedida. Pousou os olhos um pouco mais demoradamente sobre as baquetas e se dirigiu à porta. Fez um último pedido:

- Por favor... você me deixa quebrar alguma coisa? Qualquer coisa. Eu quebro aqui do lado de fora, pra que você nem precise...

- Absolutamente! Pode descarregar sua mágoa aqui na sala mesmo - interrompi-a, enquanto alcançava-lhe o pato de louça, de cima da estante.

Ela me olhou, como se ainda procurasse mais amplo concedimento e arremessou, desajeitamente o pato, fazendo-o se partir, de forma não tão satisfatória pra sua ira, em diversos pedaços quase idênticos. Antes de derrubar uma última lágrima, disse um "adeus" mal ensaiado e pouco orgânico. Na sua saída, encarregou-se de fechar a porta, pra que eu não a visse se afastar.

Quatro horas mais tarde, Santiago chega em casa. Antes do beijo terno, surpreende-se com o que fora o pato que ele tanto estimara.

- O que houve com o presente da mamãe?

- Soraya, acredita? Ela esteve aqui.

Ele teve uma breve síncope. Mas retomou, corajosamente:

- Tudo bem com você? Foi só isso que ela fez? Como ela descobriu onde a gente mora? O que ela disse? Ela te machucou?

- Ela só queria saber como nos conhecemos. Se a gente era feliz.

- O que você respondeu?

- A verdade.

- E ela?

- Não botou muita fé. Arregalou o olho e ainda disse que pra você estar num curso de gastronomia, só podia ter um motivo: procurar um rabo de saia.

- Ah, típico...

- Bem, eu não me aguentei e disse que seu plano deu certo. Foi quando ela agarrou o Duque, e aí, já era tarde demais pra eu impedir qualquer desastre.

- Tudo bem, vem cá - me abraçou vigorosamente - já passou...

Ele olhou piedoso praquele pato horroroso. Balbuciou algo que eu me apressei em interromper.

- Meu bem... isso é algo que, definitivamente, não sou eu quem tem que limpar.

E não havia mais nada que me impedisse de botar a agulha num raro vinil do Cartola.

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publicado às 01:59


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