Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
Smirting

- Ei, moço, você pode me arranjar um cigarro?

- Claro, claro.

Ele se apressa em acendê-lo, dando especial atenção à marca de batom marcando o filtro.

- Obrigada.

Alguns instantes de silêncio e ensaios mentais. Também uma troca de olhares mentirosa. Daquelas que disfarçam mal o alvo de observação.

- Você sabia que fumantes têm menos probabilidade de desenvolver Parkinson?

- É sério? - ela sorri. - E qual o benefício da minha vodka?

- O primeiro deles é que eu devo aparentar 30% mais bonito depois dessa dose. Além disso, ela reduz suas chances de doenças cardíacas e vasculares.

- Impressionante! Você é médico?

- Magina. Sou dramaturgo. E eu tenho muito tempo livre pra inventar abordagens que não sejam "você vem sempre aqui?".

- Nesse caso, sou uma mulher de sorte. Que outras abordagens você tem disponíveis?

- Você tá pensando em usar meu repertório numa próxima oportunidade?

- Quem sabe.

- Bem, você pode comentar "belo dia pra se jogar golfe, não?". Mas use isso durante uma tarde ensolarada, ok?

- Ok, isso foi bem ruim.

- E quem disse que eu estou disposto a ensinar as boas pra você?

Eles riem. Ele pára de rir antes dela e a observa.

- Taí. Sua melhor abordagem.

- Como assim?

- Esse sorriso. Basta ele.

Ele aproveita que ela ficou corada e continua.

- Olha, eu vou te confessar uma coisa.

- Conta.

- Eu já tinha notado você lá dentro. Vim tentar pensar em algo inteligente enquanto fumava um cigarro, que já tava na metade, e eu ainda só tinha imaginado coisas estúpidas pra dizer. Cada vez que eu achava que tinha a frase perfeita pra começar uma conversa, eu olhava você de longe e tinha a certeza de que ainda não era bom o suficiente. Tava me sentindo derrotado, até você aparecer e pedir um cigarro.

- Posso confessar uma coisa também?

- Claro.

- Eu não fumo.


música: Strangers in a train - Lovage

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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
É um negócio fazer prazer com você.

- Eu quero muito você.

 

- Eu também.

 

- Vamo resolver isso. Vou te levar pra casa.

 

- Minha casa é longe, você vai se perder na volta...

 

- Pra minha casa, eu quis dizer.

 

- Ah... não... não posso, não posso.

 

- Por que não?

 

- Oras, porque eu gosto de você.

 

- E o que eu posso fazer pra você me odiar?

 

- Engraçadinho...

 

- Vem comigo então...

 

- Não posso, se eu for, vou acabar dando pra você...

 

- Isso me soou como um incentivo.

 

- ...e se eu for e der pra você e você nunca me ligar, eu vou achar que eu sou uma idiota. Se tudo terminar por aqui, e você nunca me ligar, pelo menos eu vou achar que você é um idiota.


música: Como 2 e 2 - Gal Costa

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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Francamente

Ela apareceu de salto alto, deixando bem claro que estava se vingando de algo que eu fiz. Deve ter sido por eu ter tirado a barba. Ela sabe muito bem o quanto me deixa mal parecer tão mais alta que eu. Sempre fui pequeno.... desde muito, pequeno. Segundo ela, foi justamente o que a fez se sentir atraída por mim. "Dá muito torcicolo beijar homem alto. Prefiro pequenininhos assim, como você". Em geral, eu me sentiria profundamente insultado pelo "pequenininho", mas como contrariar uma mulher bonita? Quando descobrir, ensine-me como.

De salto ela é três vezes mais nociva. "I'm over heels", ela gosta de dizer. Eu a corrijo "se diz head over heels". Ela ignora. A expressão e o erro que não se restringe só ao idioma.

Quando ela pergunta "Então vamos. Você não vai se trocar?" e eu digo encabulado "já estou trocado", eu procuro, sem muito entusiasmo, alguma câmera escondida. Mas ela insiste na sua maldade peculiar "ah, não tá não". E tudo o que eu posso fazer é obedecê-la. Não tenho escolha. Ela está de salto.

Me beijou e o sonho foi apagado em instantes. "O que eu te disse sobre essa língua? Menos língua, honey. Vamo deixar esse beijo menos agressivo, sim?" e conclui a lição introduzindo uma balinha de menta entre meus lábios semi-cerrados. "Tirar esse bafinho também, né?".

A danada não consegue ver um filme inteiro comigo. Dorme nos primeiros vinte minutos. Mas dorme nos meus braços. Vez ou outra abre o olho, diz coisas desconexas, exige um cafuné e volta a dormir. Mas não ronca. Mulheres de salto nunca roncam, aparentemente. Eu achava que era porque ela detestava clássicos. Mas ela diz que se é pra dormir num filme, que seja num clássico. É bom despertar com o rosto de uma diva na tela. Adormecer novamente e sonhar que é aquela diva em preto e branco.

Daí, como uma criança, ela desperta num susto, olha pra mim em silêncio e acredito que ela está reparando mais uma vez na ausência da minha barba. Me preparo para mais um instante de dolorosa franqueza e ela diz "Eu te amo tanto. Eu passaria minha vida inteira aqui." E adormece novamente, no meio de um beijo e um sorriso meu. E então, finalmente, como vale a pena suportar toda a honestidade que cabe nessa mulher!


música: Igloo - Karen O and the Kids

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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Deu par.

"Querida Melissa;

Hoje é um dia lindo e esta carta esperou muito pra ser entregue à você. Espero que me perdoe se durante esse tempo eu falhei como mãe. Errar como mãe é uma das coisas mais naturais do mundo, querida, e se assim não fosse, a psicanálise não daria tanto dinheiro. Psicanálise dá dinheiro (não tô pressionando, mas fica a dica). A gente erra porque maternidade não é lá coisa de gente muito equilibrada. Veja só você, eu experimentei um amor que jamais senti na vida por uma coisinha com pouco mais de 6,5 cm, amórfica e assexuada. Agora você já é uma mulherzinha e eu conto com a combinação dos genes certos pra que você tenha se tornado a pessoa linda que eu planejei (isso significa: meu nariz e o cabelo do seu pai). Além da loteria genética, desde já desejo que você seja mais forte que eu e que nunca deixe partirem seu coração. Eu poderia desejar sabedoria, mas força é mais adequado caso você precise revidar se alguém se atrever a partir seu coração. Espero que aprecie o fato de ganhar uma carta escrita à mão, que mesmo agora é coisa raríssima (talvez agora você fique milionária vendendo pra algum museu. Se quiser recompensar a mamãe pela relíquia, saiba que eu sempre quis morar em Buenos Aires). Desejo que aproveite bem seu metabolismo mágico da juventude. Pra que não se arrependa quando chegar o momento em que você vai ser obrigada a descobrir o sabor oculto da ricota. Desejo que seja retro o suficiente pra cantar comigo as músicas do Belle and Sebastian. Desejo que você queira comemorar o Reveillon em março, se necessário. Porque nem sempre as viradas de ano são mágicas como esperamos e muitas promessas não podem esperar até dezembro. Desejo que seja feliz sem esforços e que desacredite em todas as previsões apocalípticas de que o mundo está perdido e que a humanidade não tem salvação. Há gerações eles dizem isso e eu garanto que se algo resistiu foi o amor. Então ame as pessoas. Elas são maravilhosas. As que não são, não foram amadas. Eu estou fazendo a minha parte há 18 anos. E amo você. Feliz aniversário."

- Mas mãe... "Melissa"? Meu nome é Cecília!

- É, eu perdi no par ou ímpar com seu pai.


música: Piazza New York Catcher - Belle and Sebastian

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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
Azaração. Se tem esse nome, boa sorte é que não é.

1- Gente, o que é esse sorriso? Ok, lá vamos nós.


2- Ele não tem mau hálito.


3- Sim, eu quero sair daqui.


4- É. Vou ter que explicar o que é indie rock. É melhor eu nem comentar que gosto de downtempo.


5- Ele acha a Europa feia porque só tem "coisa velha".


6- Ele acha que "Viver a Vida" é só o título da novela.


7- Acabou de ver meu "Drummond' e disse que em casa servia como um bom calço.


8- Não, meu bem, eu te garanto que não foi o Chico Buarque quem regravou a Pity. Isso é uma heresia.


9- Não, heresia não tem nada a ver com ereção.


10- Ele acabou de dizer "disintiria".


11- Tá, já chega, eu não sei porque eu ainda tô dando corda pra essa topeir...


12- Oh, não, droga... esse sorriso de novo.



publicado por the fazz às 23:47
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Sábado, 26 de Dezembro de 2009
Olha só o que eu fiz comigo

- Edgard... você... você tirou a barba? O que deu em você?


- É... tirei... tirei e quero que você saiba que também vou cortar o cabelo.


- Não!


- Vou.


- Mas por que isso?


- Eu nunca mais vou usar Vans, entendeu?


- Eu fiz alguma coisa? Peraí, vamo conversar...


- Aquele perfume que você me deu... você nunca mais vai sentir esse cheiro em mim...


- Eu pensei que você gostava des...


- Nem as regatas listradas, nem as camisas xadrez. Vou cobrir minha tatuagem, usar lentes e abandonar os óculos... e você vai ter que aprender a aceitar... e gostar de mim assim. Exatamente assim. Com absolutamente nenhuma semelhança com o seu ex-namorado.


música: Sua Estupidez - Gal Costa

publicado por the fazz às 01:53
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Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
Seu cheiro, de repente, na locadora.

Meu bem, hoje senti o seu cheiro. Eu estava tentando escolher um desses filmes de enredo fraco, algo que fizesse parecer que os meus roteiros são muito interessantes. O seu perfume bom vinha da seção de filmes adultos e usei todo meu (escasso) poder de interpretação para fingir interesse na capa de "Jorrada nas Estrelas". Guiada pelo aroma e um pouco de insanidade, descobri enfim o rapaz interessado na capa de "Pênis, o Penetrinha". Era ele. E ele, meu bem, era tão, mas tão obcenamente feio que, apoiada no fato de que o olfato é o mais mnemônico dos sentidos, eu devo suplicar: troque de perfume, por favor.


música: Argumentos - Lulina

publicado por the fazz às 15:49
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
(Sabe aquela conversa super comum entre vizinhos que nunca se viram?)

- Maitê? Você tá aí?

(Uma voz abafada prova que há vida além da parede imunda)

- Jonas? Jonas! Eu já tava preocupada! Quase mandei o seu Elias arrebentar sua porta! Tava ouvindo música no fone de novo? Dormiu na banheira? Teve um ataque epilético?

- Não, não, nada disso. Banheira? Porra, tem banheira no teu apê? E a gente paga o mesmo condomínio?

- Jura que você não me ouviu te chamar?

- Eu não tava em casa. Acabei de chegar.

- Você saiu? Saiu de casa?

 - Saí. Acabei de chegar.

- Mentira!

- Verdade.

- Mentira!

- Verdade mesmo. Posso te contar como foi...

- Mentira!

- ... ou podemos ficar a noite inteira nisso, você escolhe.

(Cara, ela ri a valer. E eu só uso "a valer" com sotaque do interior)

- Desculpa... é que já faz tanto tempo, né? Me assustei quando você não respondeu. Já me acostumei a ter você por perto. É como se tivesse sempre um homem em casa. Sem o incoveniente da tampa do banheiro levantada ou a toalha molhada em cima da cama.

- Ah, quer dizer que é só pra isso que eu sirvo? Utopia do homem perfeito?

(Agora os dois resolveram rir, mas por motivos diferentes. Ela até que achou ele meio esperto, e ele só riu de nervoso. Porque apesar de ter se sentido um pouco esperto por ter dito isso, depois se sentiu um completo idiota. Lembrou dos metidos que acham bonito usar a palavra "utopia" mas que sem a ajuda do Wikipedia jamais saberiam quem é Thomas More)

- Me conta das suas aventuras de hoje.

- Ah, eu preferi não me arriscar muito. Um passo de cada vez. Trinta e dois, pra ser mais preciso. Fui até essa casa de bailes da esquina.

- Você esteve lá? Jura mesmo? Eu também tava lá! Cheguei há uns vinte minutos.

(Silêncio. Mais longo pra ele que pra ela. A tal da teoria da relatividade explica isso. Vai lá ver no Wikipedia)

- Como você tava vestido?

(Ele olha pras próprias roupas. Está com um conjunto verde musgo que nunca viu um ferro na vida)

- Uma camisa amarela e calça bege.

(Mal gosto do cão)

- E você?

(A danada tá vestida de azul. Mas também vai dizer outra coisa)

- Um vestido vermelho.

(Ficam ali, quietinhos de novo, ensaiando mais coisas pra dizer)

- Talvez você tenha me tirado pra dançar.

- Como?

- Hoje no baile. Talvez a gente tenha dançado junto e não saiba.

- Eu não sei dançar, nunca tive jeito. Mas gosto de ver as pessoas dançando. As pessoas ficam juntas mesmo. Acontece alguma coisa lá dentro, no salão. Porque são pessoas tão estranhas quanto aquelas que a gente tenta evitar contato na rua. Que a gente se esforça pra não esbarrar na correria. Mas lá os estranhos se olham nos olhos. Se convidam pra um bolero. Ficam com o corpo colado a música inteira. O mais bonito é quando os rostos se encostam.

(Ela dormiu. Dormiu, toda torta em cima da mesa. Devia ser um porre daqueles. Amanhã ela vai acordar sem lembrar do que o Jonas disse e com uma ressaca dos infernos)

- Faz três meses que eu só tenho contato com os meus livros. É engraçado que o meu primeiro contato com pessoas depois desse tempo todo tenha sido assim. Agora eu voltei pra casa e algo me incomodou muito. Essas coisas todas... meus livros... meus cds... meu copo de leite, pela metade, tudo, tudo. Tudo exatamente onde eu deixei.



publicado por the fazz às 22:09
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Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
"Barbie em chamas"*

- Alô? Vinícius?

 

- Oi?

 

- Isabel, tudo bem?

 

- ... oooooi, Isabel...

 

- Pode falar?

 

- Posso, posso...

 

- Eu sei que você não ia ligar, então liguei eu.

 

- Magina, Isab...

 

- Mas se eu fosse você, eu também não ligaria. Eu sei que não causei lá aquele impacto ontem à noite. Por isso acho que você deveria me dar outra oportunidade. Eu preciso provar que eu não sou só uma garota que abre um sorriso fácil depois de três drinks coloridos de vodka. E se é essa a impressão que você tem, você está completamente enganado. E eu não posso permitir que um homem seja tão bonito e tão enganado. É pecado.

 

Ele ri.

 

- É mesmo? E o que eu deveria saber sobre a Isabel que eu não conheci ontem?

 

- Bem, pra começar, ela gostou de você. E isso já não se deve ignorar. Ela gosta de um monte de bandas legais, mas admite pra poucas pessoas que adora ouvir Roxette de vez em quando. Se um dia você souber disso, é porque é de confiança.

 

- Ace of Base. Só ouço no K7, assim nenhum registro de last.fm me denuncia.

 

- Viu só? A gente precisa se ver de novo. Sabe quando você entra numa loja e o funcionário te convence a olhar melhor a mercadoria sem compromisso? Pensa que é quase isso. Na pior das hipóteses, será uma tarde bem gasta tomando uma cerveja e ouvindo sucessos de Roxette e Ace of Base.

 

- É, isso nunca poderia ser ruim.

 

- Claro que não. E de papo, acredite, eu sou muito boa. Posso falar de teoria do caos e cocô com o mesmo entusiasmo. Eu ainda sei o truque de fazer a moeda sumir, estralo o maxilar, imito pelo menos 3 personalidades. Não tem como você ficar entendiado, eu juro, você não tem nada a perder.

 

Ele ri. Escolhe as palavras.

 

- Que coisa louca, isso. Louca e boa, na verdade.

 

- Se é boa, justifica toda a loucura. Eu acho.

 

- Isabel... por favor, diga que pode me encontrar ainda hoje.

 

Silêncio.

 

- Ahn? Hoje?

 

- É, quanto antes melhor. Você me deixou ansioso pra te ver de novo.

 

- Hummm... ansioso? Por que?

 

- Como por que, Isabel, você convence qualquer homem do que quiser. Eu mesmo, pra minha surpresa, tô morrendo de vontade de te ver. AGORA.

 

- Pra sua "surpresa"?

 

- Não... espera, não entenda nada errado... é só que realmente, achei que ia ser só um lance de balada, mas você está certa, eu realmente a subestimei... pode até ser precipitado, mas eu estou quase convencido de que você é tudo o que eu procurei a minha vid...

 

- Peraí, rapazinho... você tá querendo dizer que eu te ganhei pela insistência, é isso? Que eu não sou tão atraente e preciso de argumentos pra conquistar as pessoas? É isso?

 

- Você tá louca? Eu não disse nada disso, eu só sei que agora...

 

- Pois fique sabendo que eu sei me colocar no meu lugar, que eu sei bem que química não é algo que se pega no tranco.

 

- Isabel, você bebeu? Do que voc...

 

- Olha aqui, Vinícius, se você não soube dar valor quando teve a oportunidade, sinto muito. Eu sou uma mulher fantástica que não precisa correr atrás de homem nenhum, muito menos ficar adulando marmanjo pra um encontrozinho. Fique aí, regulando essa mixaria.

 

Mudo.

 

Vinícius, não o telefone.

 

 

* título livremente chupado de Felipe Lacerda.


música: Hey - Pixies

publicado por the fazz às 02:04
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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
Carta para Letícia
Letícia. Eu estive pensando em todas as suas colocações e não posso ser tão insensato ao ponto de achar que você não tenha razão em muitos dos seus argumentos. Você está absolutamente certa em me acusar de ter subestimado pequenas coisas que sempre foram fundamentais pra você. Eu sei que muitas delas não estavam ao alcance da minha compreensão, mas isso de nada invalida o fato de que o que você pensa deve ser respeitado. Às vezes é muito difícil compreender como funcionam suas expectativas e você tem absoluta razão em afirmar que são expectativas comuns a toda mulher e que eu sou um tolo de não ser sensível a isso. É inquestionável a sua colocação de que eu sou fraco, covarde e muitas vezes vivo pela metade as oportunidades que a vida me dá. Não há discussão quanto ao que você falou da minha imaturidade. Eu tive poucas mulheres na vida e pouco soube lidar com cada uma delas. Você tem razão quando me acusa de usar as palavras erradas em situações diversas. E usar palavras diversas pra tornar erradas as situações. Você está certa em me acusar de egocêntrico, arrogante e patologicamente pessimista. De ter sido desagradável com sua família. De ter dado pouco valor aos seus esforços em fazer a vida tratar a gente um pouco melhor. Por ter me exaltado pouco com suas conquistas, por ter apagado alguns sorrisos seus, por ter frustrado alguns dos seu sonhos. Mas quanto à todas as suas outras colocações, Letícia: vai tomar no seu cu.

publicado por the fazz às 02:27
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